KOUDELKA E O COMPROMISSO NA FOTOGRAFIA

O perfil de um homem disposto a ir até o fim por suas fotos

Praga, Checoslováquia, 1968. Às 4 da manhã os tanques soviéticos invadem a cidade, dando início ao que ficou conhecido como a “Primavera de Praga”, início da invasão do país pela então União Soviética. Um fotógrafo recebe uma ligação de sua namorada lhe alertando sobre o que estava ocorrendo, salta da cama e, mesmo sem nenhuma experiência como fotojornalista, sai às ruas para fotografar tudo o que pôde ver, parando após uma semana. Era Josef Koudelka.

Josef Koudelka | Invasão 68: Invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Praga, Checoslováquia. Agosto de 1968. © Josef Koudelka | Magnum Fotos

Josef Koudelka | Invasão 68: Invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Praga, Checoslováquia. Agosto de 1968. © Josef Koudelka | Magnum Fotos

Por mais de cinquenta anos, Koudelka tem dado ao mundo imagens impactantes, registrando, principalmente, aqueles que não têm voz (exilados, por exemplo) e lugares esmagados pelo homem, incluindo-se aí diversas ruínas deixadas pelas guerras. Suas fotografias da Primavera de Praga são o exemplo máximo do quão corajoso um fotógrafo deve ser, mesmo que o ato de fotografar lhe custe a segurança ou lhe imponha risco de vida pois, mesmo estando sob a mira de soldados soviéticos, Koudelka não se esquivou de documentar a invasão de seu país. Quando questionado sobre o porquê de fotografar a invasão, respondeu: “era MEU país que estava sendo invadido, então me senti na obrigação de me envolver; possuía uma câmera, então decidi usá-la”. Contrabandeadas para fora da Checoslováquia, tais fotos foram parar na Agência Magnum, a qual as publicou, dando-lhes como crédido comente as iniciais P. P. (Praga Photographer). Estas imagens tornaram-se um documento importante da história do século XX, embora, por vinte anos, Koudelka não pôde desfrutar da fama, já que sua família, ainda morando na Checoslováquia, poderia sofrer as consequências da sua autoria das fotos. Quando perguntado sobre o que sentiu durante o tempo em que, mesmo vendo suas fotografias alcançarem fama mundial não pôde desfrutar do prestígio, respondeu: “não fiz as fotos esperando fama, fiz porque era a coisa certa a ser feita”. Vê- se, portanto, que sua motivação primeira não é a fama ou o dinheiro, mas sim o seu compromisso com a fotografia.

Josef Koudelka | Invasão 68: Invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Praga, Checoslováquia. Agosto de 1968. © Josef Koudelka | Magnum Fotos

 

Recentemente tomei contato com outro projeto de Kouldelka, a “Beirute de Koudelka: a visão do que não pode ser visto”. Trata-se de fotos feitas em Beirute, capital do Lìbano, logo após a Guerra Civil Libanesa, em 1991, mais uma vez feitas por um fotógrafo disposto a registrar, a qualquer custo, imagens de um local assolado pela loucura dos homens, conforme lê-se no texto que acompanha as fotos:

“Do nascer ao pôr do sol, ele percorria a cidade como um animal selvagem, caçando fotografias como presas. Levantando-se, inclinando-se, empoleirando-se em um guindaste, deitado na beira da estrada, ele trabalhava a cada segundo durante horas.”

Josef Koudelka . Beirute, Libano. 1991. © Josef Koudelka | Magnum Fotos

 

Josef Koudelka . Beirute, Libano. 1991. © Josef Koudelka | Magnum Fotos

 

Segundo ele próprio, Koudelka é movido por seu compromisso em fotografar aquilo deve ser fotografado, independentemente de fama ou dinheiro. Sua visão, a qual compartilho, é a de que a fotografia tem de servir a um propósito maior, que é a documentação da humanidade, em todas as suas faces. Suas imagens nos mostram que fotografias têm de causar impacto, ainda que isto não se traduza em beleza. Sua obra nos ensina que, diversas vezes, a urgência precede a prudência, fazendo-se necessário arriscar-se para se obter não qualquer foto, mas a foto que é NECESSÁRIA. Tido por muitos como irresponsável, já que suas fotografias, mais de uma vez, custaram-lhe ferimentos e até mesmo uma deportação, Koudelka é, na verdade, o mais compromissado fotógrafo de todos os tempos, um homem disposto a ir até o fim no seu desejo – e obrigação – de fotografar aquilo que pela vida lhe é exigido.

Em um tempo onde a trivialidade das imagens fáceis permeia a obra de muitos fotógrafos, Koudelka nos ensina que o fotógrafo, mais do que ambição (seja por fama ou por dinheiro), tem de ter compromisso – com a fotografia e com o mundo.

Veja mais: https://www.magnumphotos.com/newsroom/conflict/josef-koudelka-beirut/

 

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