SOBRE MEMÓRIAS E FOTOS

*Publicado originalmente no dia 18 de abril de 2018, no meu perfil do Facebook

 

Dias atrás, conversando sobre fotos com uma amiga, ela se surpreendeu quando lhe contei que nunca deleto nenhuma imagem, por pior e mais feia que seja, pois gosto de, de tempos em tempos, olhar o que fiz de errado a fim de compreender como cheguei à imagem ideal. Mais tarde, naquela mesma noite, conversei com uma outra amiga a respeito de memórias, sobre o quanto elas – mesmo as mais dolorosas – são importantes para nós. Refletindo bem consegui estabelecer uma relação entre as duas coisas.

Quem é fotógrafo sabe: quase sempre, boas fotos não nascem espontaneamente. Ao invés disso elas são fruto de um processo, de modo que para cada imagem “ideal”, para cada acerto, diversos erros são cometidos, diversas imagens ruins são registradas. Há quem prefira deletá-las, mas eu não. Guardo tudo, pois sei que ninguém evolui olhando apenas os acertos. Sei que um homem sábio aprende com os próprios erros, de modo que o processo fotográfico é igualmente relevante tanto quanto a foto final. Gosto de olhar para trás e pensar: “puxa, se eu tivesse feito diferente aqui teria conseguido uma boa foto!”. É claro, não são todos os que admitem a importância do erro; igualmente raros são os que olham para as próprias falhas, as admiram e as reconhecem como meios de evolução. O mesmo ocorre com as memórias.

 

Assim como na fotografia, nem sempre acertamos no amor. Às vezes, erramos ao tentar fazer a coisa certa; às vezes, cometemos uma série de enganos até acertar. Na fotografia, vez por outra conseguimos estragar uma sessão que tinha tudo para ser linda, e ao invés de belas fotos acabam restando apenas uma coleção de imagens feias; no amor também é assim. Às vezes, uma relação que tinha tudo para dar certo termina estragada, repleta de dor e mágoa, cheia de memórias ruins. Assim como muitos fotógrafos fazem com as fotos que não deram certo, diversas pessoas preferem negar as memórias ruins, as ignoram, evitam recordá-las. Contudo, lhes digo: não façam isso. Quando não nos recordamos de nossos erros, a tendência é repeti-los no futuro. Por mais que determinadas lembranças doam, olhar para elas é necessário, pois as falhas servem de parâmetro de comparação ao nos dizerem que certas coisas, certas atitudes, provocaram danos, tiveram consequências. Mas não é apenas para refletir que devemos guardar fotos e memórias.

Quando dizem que o tempo é sábio eles têm razão. Determinadas coisas só fazem sentido com o passar do tempo, e coisas que hoje parecem ruins, feias, amanhã podem compor um belo conjunto, pois a nossa percepção influencia o que vemos e, mais ainda, o modo como vemos. Aprendi, ao longo de anos fotografando e amando, que a beleza não está apenas, individualmente, em cada momento, em cada gesto, em cada pessoa. Não, a beleza está também no conjunto. Certas coisas só se tornam belas quando reunidas e olhadas juntas, à distância. As recordações daquela pessoa pela qual você hoje sente mágoa amanhã talvez se transformem em um belo conjunto de recordações, pois tudo muda, inclusive nossos sentimentos. Fotos também.

É por isso tudo que lhes imploro: não apaguem suas fotos nem tampouco suas memórias – mesmo as ruins. Guarde-as com carinho e, de tempos em tempos, as contemplem; pode ser que você se surpreenda com o que verá!

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